Crónica: "Portugal tem destas coisas"

Bruna Real, professora de Mirandela, foi capa da Playboy no mês passado. Este facto não é motivo para escândalos, até porque as nossas celebridades já o fizeram e não foram motivo de abertura de jornal, nem despedidas dos seus trabalhos.
Por um lado, não se entende o facto da docente ter sido mudada de cargo, visto estarmos num país livre, onde as mulheres têm direitos sobre o seu corpo e não são descrimindas por tal. Exibi-lo ou cobri-lo, são actos que não competem ao municipio julgar, até porque se a revista esgotou em tão pouco tempo é porque havia alguma curiosidade por parte das populações. Se compraram a revista, fosse só para ver ou para apreciar a produção, a verdade é que não deveriam julgar a professora.
Segundo outro ângulo, somos pessoas responsáveis pelos nossos comportamentos e actos, e como tal, devemos ter em atenção determinadas atitudes quando sabemos que podemos ferir susceptibilidades de terceiros. Neste preciso caso, as crianças viram mais do que podiam, quer fosse no ambiente escolar quer familiar (porque sim, os pais compraram como leitura de Wc). Estamos a falar de crianças que não sabem o que é certo ou errado, crianças que encontram nos docentes um amigo e um auxiliar, um modelo a seguir. Não desejamos que os nossos jovens considerem este género de atitude normal, porque não o é. Mas também não é normal os nossos políticos faltarem à palavra, prometerem mais do que cumprem, aumentarem os impostos de um momento para o outro, tomarem decisões que competem à vida humana e ninguém se queixa e ninguém os despede ou os coloca no cantinho mais escuro da Câmara Municipal.
Onde fica a docente no meio disto tudo? Encurralada entre os arquivos de Mirandela a ganhar um salário mínimo, quando estas produções lhe rendem vinte vezes mais? Será que os senhores da Câmara não vão querer consultar mais frequentemente os arquivos para lhes avivar a memória?
A verdade é que esta situação é um tanto ou quanto complicada e nenhuma atitude devia ter sido tomada precipitadamente. Estamos a falar de uma professora que tem total liberdade para fazer o que quer fora do trabalho e quando o faz caem-lhe em cima. Então em que ficamos, a docente tem liberdade e poder de escolha e decisão enquanto ser humano ou sempre que decidir tirar a roupa vão despedi-la já que não podem despi-la?


